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O
Estado de Goiás está investindo mais 2 milhões de reais em pesquisa, numa parceria com
o Ministério da Ciência e Tecnologia. Saúde, educação, agronegócios e bioma cerrado
são as quatro áreas prioritárias para o Programa de Incentivo à Pesquisa, lançado, na
terça-feira, 24, pelo governador Marconi Perillo. Mas ele também vai contemplar
pesquisas básicas, incentivando, inclusive, o processo de interiorização da ciência.
Quem
garante é o secretário de Ciência e Tecnologia, Gilvane Felipe, que considera
este investimento o maior da história do Estado no setor. Em visita ao Jornal
Opção, na segunda-feira, 23, o historiador Gilvane Felipe, 38 anos,
com um doutorado suspenso na França, fez um balanço de sua pasta e sobre os
novos projetos |
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em andamento. Mas também abordou temas polêmicos, como a
relação das esquerdas com o governo e o cadáver insepulto de Stalin na
história do comunismo mundial.
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José
Maria e Silva — O governo estadual está lançando o Programa de Incentivo à Pesquisa.
Em que consiste esse programa?
O Programa de Incentivo à Pesquisa, o Proinpe, que está sendo lançado pelo governador
Marconi Perillo, vai investir 2 milhões de reais em pesquisas. Desse total, 80 por cento
se destina a quatro áreas consideradas fundamentais: educação, saúde, agronegócios e
o bioma cerrado. Um dos critérios para aprovação dos projetos é que sejam
interinstitucionais — devem reunir mais de uma instituição. Com isso, as instituições
que já têm linhas de pesquisa consolidadas ajudarão as demais. Mas não esquecemos a
pesquisa básica — 10 por cento dos recursos serão destinados a projetos de pesquisa básica
e outros 10 serão destinados a núcleos de pesquisa do interior. É claro que o pessoal
do interior também pode participar daqueles 80 por cento gerais, mas fizemos uma reserva
especial de recursos para eles, para evitar a possibilidade de não serem contemplados.
Estamos lançando, portanto, três editais de pesquisa. Que serão os primeiros. Porque o
Programa de Incentivo à Pesquisa será um programa continuado. Nesses primeiros editais,
resolvemos dar uma demonstração para a sociedade de engajamento do mundo científico e
tecnológico no esforço de renovar as estruturas de desenvolvimento do Estado, daí a
prioridade que se deu a áreas estratégicas. Esse é, sem dúvida, o maior investimento
em ciência e tecnologia da história do Estado. O governador Marconi Perillo já tinha
investido 1 milhão de reais em pesquisa, pagando promessa não cumprida pelo governo
anterior, agora, vai investir mais 2 milhões, numa parceria com o Ministério da Ciência
e Tecnologia.
José
Maria e Silva — No interior das próprias universidades, já existe uma excessiva
departamentalização. Os pesquisadores não se intercomunicam. Existe uma interação
entre as instituições de pesquisas capaz de possibilitar essas pesquisas
interinstitucionais?
Não. E é justamente por isso que estamos apostando nessa via. A ciência, sobretudo a ciência
moderna, é uma obra coletiva. O mapeamento do genoma humano só foi possível porque uma
rede mundial de pesquisadores trabalhou em conjunto, cada um fazendo uma parte do
trabalho. No passado, muitos avanços científicos se deram pela obra isolada de alguns gênios,
mas, hoje, isto está cada vez mais difícil. As grandes inovações científicas e tecnológicas
estão ocorrendo de forma cada vez mais cooperativa. Ao mesmo tempo que trocam experiências,
os cientistas polemizam entre si, questionam os resultados de suas pesquisas, e a fluência
desse debate faz a ciência avançar. Por isso é importante estimular a pesquisa
interinstitucional e interdisciplinar, outro critério que será levado em conta na aprovação
dos projetos. Precisamos acabar com as igrejinhas que também existem no mundo acadêmico
e são prejudiciais para o desenvolvimento científico. Não falo isso como crítica, mas
como autocrítica, porque vivo o mundo acadêmico desde a minha militância estudantil e
sou professor, licenciado, da Federal e da Católica.
José
Maria e Silva — Como o senhor avalia a gestão do ministro Ronaldo Sardenberg, da Ciência
e Tecnologia?
Ronaldo Sardenberg é o ministro digno de nota do governo Fernando Henrique Cardoso.
Algumas pessoas criticam sua indicação, por ele não ser da comunidade científica, mas
diplomata. No entanto, ninguém conseguiu reunir tanto apoio da comunidade científica,
acadêmica e estudantil quanto o ministro Sardenberg. Talvez seja um dos poucos ministros
que tem o apoio praticamente unânime da base que dirige. Quando surgiu o boato de que o
PFL e o PMDB queriam sua pasta, houve uma mobilização nacional de todas as entidades do
mundo científico em defesa de sua permanência.
José
Maria e Silva — O que há de mais positivo na gestão dele?
O ministro Sardenberg reconhece, como na canção de Milton Nascimento, que o Brasil não
é só litoral. Ele tem feito um grande esforço no sentido de interiorizar a ciência e a
tecnologia no país. O que não é fácil, exige alguém que saiba fazer política, como
ele. Algo em que a comunidade científica não é boa. Quando se vê obrigada a entrar na
área política, a comunidade científica se sente como se estivesse à beira do pecado.
Temos que romper com essa visão. O mundo científico precisa constituir bancadas nos
parlamentos, das Câmaras Municipais ao Congresso Nacional.
José
Maria e Silva — A sociedade já está mais receptiva em relação à necessidade de se
investir em ciência, como já se mostra receptiva à necessidade de se investir em educação?
As nossas elites econômicas ainda preferem comprar pacotes tecnológicos prontos do
exterior, em vez de desenvolvê-los aqui mesmo no país. É o barato que sai caro. Essa
conduta torna o país dependente. A dominação está cada vez mais calcada no
conhecimento e não na força. Mas há incompreensão mútua. Como observou o reitor da
USP, Jacques Marcovitch, as universidades e as empresas vivem, quase sempre, um diálogo
de surdos — uma cobrando da outra aquilo que ela não pode oferecer. Os empresários
reclamam que a pesquisa científica é lenta demais, enquanto o pesquisador reclama que os
empresários são imediatistas. O papel da Secretaria de Ciência e Tecnologia é o de
aproximar os dois setores. Já temos duas iniciativas concretas e muito promissoras nesse
sentido — as plataformas tecnológicas do pólo farmoquímico de Anápolis e do pólo
agroindustrial de Rio Verde. Os prefeitos Paulo Roberto Cunha e Ernani de Paula são
entusiastas desses projetos. Em Anápolis, por exemplo, temos um laboratório de controle
de qualidade de medicamentos, um dos poucos existentes no Brasil, que já é fruto da
parceria entre os três setores: universidades, empresariado e governo. Da mesma forma, o
Laboratório de Bioequivalência, instalado na Praça Universitária, numa parceria entre
o Instituto Melon e a Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Goiás. O ministro
Ronaldo Sardenberg tem citado a plataforma tecnológica de Anápolis como exemplo em todo
o país.
José
Maria e Silva — Uma agência de investimento em pesquisa, nos moldes da Fapesp, do
Estado de São Paulo, seria viável em Goiás?
Instituições do gênero da Fapesp funcionam em pouquíssimos Estados. Não deram certo.
Em Goiás, temos o Fundo Estadual de Ciência e Tecnologia, criado no governo Santillo e
gerido pelo Conselho de Ciência e Tecnologia. Ele dispõe de uma vinculação orçamentária
de 3 por cento da receita líquida do Estado, definida na Constituição estadual. Não há,
portanto, a necessidade de criar uma fundação, que poderia vir a ser apenas um órgão
burocrático a mais. Mais importante é garantir as verbas. A Fapesp funciona muito bem
porque não lhe faltam recursos. São Paulo é um Estado muito rico e já tem uma cultura
de mais de meio século de investimento em educação e ciência como fator de
desenvolvimento. Tanto que conta com três grandes instituições de ensino superior, a
USP, a Unicamp e a Unesp.
José
Maria e Silva — Quando foi que o repasse constitucional de 3 por cento para a ciência e
tecnologia foi cumprido no Estado de Goiás?
Nunca. Mas o governador Marconi Perillo pretende encerrar o seu mandato se não cumprindo
integralmente esse compromisso, pelo menos chegando perto disso. Mas, assim como o governo
tem que mostrar que vai investir em pesquisa, o mundo científico tem que mostrar que tem
projetos.
José
Maria e Silva — Quanto significariam, hoje, os 3 por cento que devem ser repassados à
ciência?
Cerca de 60 milhões por ano.
José
Maria e Silva — Parece dinheiro demais para um Estado tão incipiente em pesquisa. E
isso acaba levando os governos a nunca repassarem a verba. Não seria melhor baixar o
percentual e obrigar todo governo a cumpri-lo, evitando a desmoralização total da lei
que ocorre, de forma continuada, há mais de dez anos?
Alguns defendem essa tese e sugerem apenas 0,5 de repasse. Mas não creio que seja uma boa
estratégia começar uma negociação já disposto a pedir menos para quem nunca deu nada.
Creio que deveríamos discutir profundamente essa questão, sob o comando do governador,
para chegarmos a denominadores comuns.
José
Maria e Silva — É possível criar uma frente do Centro-Oeste em defesa do
desenvolvimento científico e tecnológico, uma vez que os Estados da região têm
dificuldades comuns?
Esse é um desafio importante e temos nos articulado com Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e
Distrito Federal. Não é uma articulação fácil, porque esses Estados também são
concorrentes. Mas fui indicado para a vice-presidência do Fórum Nacional dos Secretários
de Ciência e Tecnologia com o apoio unânime dos secretários do Centro-Oeste. Também
tive o apoio do Nordeste, que sempre age em bloco. Essa já foi uma articulação
bem-sucedida nossa no sentido de fazer frente ao poderio das regiões Sul e Sudeste. O
presidente do fórum é o secretario de ciência e tecnologia de Pernambuco, Carlos
Marinho.
Euler
Belém — Por que a UEG não está sob o controle da Secretaria Estadual de Educação?
Quando o governador criou a UEG e a vinculou à Secretaria de Ciência e Tecnologia,
confesso que fiquei intrigado, porque nunca tinha discutido isso com ele. Ele não me
consultou. Achei aquilo um enigma, uma mudança estrutural extremamente avançada para Goiás.
Só recentemente descobri a possível causa dessa decisão dele. Marconi Perillo integrou
a Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara dos Deputados e deve ter sido lá que se
aprofundou no estudo da realidade do setor no país. Em São Paulo, Rio de Janeiro,
Pernambuco, Paraná e Ceará, entre outros Estados, as suas universidades estaduais estão
vinculadas às respectivas secretarias de Ciência e Tecnologia. A Secretaria da Educação
é uma secretaria muito complexa, gigantesca. Outro dia, conversando com a professora
Raquel Teixeira, ela me forneceu números da sua pasta. Só no ensino médio, ela conta
com 280 mil alunos, dez vezes mais do que o total de 28 mil alunos da UEG.
Euler
Belém — A UEG ainda vai-se expandir?
A UEG, até 2002, não deverá ter mais nenhuma expansão em termos de unidades. Agora,
ela entra na fase de consolidação das estruturas montadas. O governador lançou um
desafio, que estamos cumprindo à risca, de informatizarmos toda a UEG em 90 dias e
conectar todas as suas unidades à Internet. Vamos cumprir essa determinação em 87 dias.
Fizemos a eleição direta para reitor e para diretores de unidades. O governador Marconi
Perillo foi ousado ao criar a Universidade Estadual de Goiás e também ousado ao instaurá-la
de maneira aberta, democrática, transparente, com eleições diretas.
José
Maria e Silva — A UEG, no interior, forma basicamente professores. E há muitos cursos
de licenciatura na área de humanas que já estão saturados. O que fazer com essas
licenciaturas?
Outro dia participei de um debate em Jataí. Um professor se levantou e disse que conhecia
um professor de Iporá e que esse professor lhe tinha dito que, em Iporá, não há nenhum
jovem com idade de 30 anos que não seja graduado em história, geografia ou letras. E, em
Iporá, os cursos oferecidos são história, geografia e letras. Então, ele perguntava se
não era hora de mudar os cursos? Eu disse: “Aí está uma das grandes diferenças entre
governar e simplesmente debater os problemas. Concordo com o que disse o professor, mas
quero saber quem se propõe a fechar os cursos lá em Iporá, quem atira a primeira pedra,
o que vamos fazer com os professores de lá”. Precisamos discutir essas questões e
criar alternativas. Uma delas, por exemplo, é o ensino a distância, que, com a
informatização total, será possível. O professor de uma cidade onde um curso for
desativado, pode ser capacitado para atuar no ensino a distância, por meio da Internet,
ficando na mesma cidade. Mas precisamos investir também no fator humano, porque não há
avanço tecnológico sem o ser humano, sem o profissional. O Plano de Cargos e Salários
da UEG já está tramitando na Assembléia Legislativa. E estamos fazendo um esforço
muito grande no sentido de qualificar nosso quadro docente. São mais de 600 professores
fazendo pós-graduação.
Euler
Belém — Quanto é o custo mensal da UEG?
Cerca de 5 milhões de reais por mês, contando com a folha de pagamento. Na verdade, é
um investimento, porque a UEG é uma alavanca a mais do desenvolvimento do Estado. Estamos
capacitando, por exemplo, 12 mil professores da rede pública de ensino. Vamos alfabetizar
133 mil pessoas, no Projeto Vaga-lume, que existe há um ano e integra, agora, o Programa
Escreve Goiás, coordenado pela secretária da Educação, Raquel Teixeira. São turmas em
75 municípios. É um projeto de grande alcance social. Vamos investir na Esefego, para
transformá-la num centro de excelência do esporte, numa parceria com o Conselho Estadual
de Esportes.
Euler
Belém — Há uma curiosidade há respeito de sua possível candidatura a deputado
estadual. Esse é, de fato, o seu projeto?
Fiquei muito lisonjeado com as palavras da deputada Denise Carvalho, naquela sua
entrevista histórica ao Jornal Opção, mas quero dizer que sou candidato a ser um
excelente secretário de Ciência e Tecnologia, portanto um auxiliar útil ao governo do
Estado de Goiás. Uma candidatura envolve vários fatores, quase todos exteriores à minha
pessoa. Seria preciso discutir com o partido e com o governador Marconi Perillo. Tenho um
compromisso com ele até o final do mandato e creio que esse será meu caminho.
Euler
Belém — É sua intenção continuar no PC do B ou pretende ir para o PSB?
Apesar deu ter sido convidado pelo PSB e por outras agremiações, continuo no PC do B.
José
Maria e Silva — O deputado federal Aldo Arantes, em entrevista ao jornal O Popular,
admitiu a hipótese de ser candidato a governador pelo PC do B. Isso significa ria uma
ruptura com o governo Marconi Perillo?
O deputado Aldo Arantes apenas aventou a possibilidade de ser candidato a governador, mas,
em nenhum momento, cogitou qualquer ruptura com o governo do Estado. Aldo Arantes tem
substância para essa empreitada, mas, como ele próprio frisa, essa é uma questão a ser
debatida pelo partido. Particularmente, prefiro um candidato ao governo de uma coalizão
de centro-esquerda. Esse seria o maior avanço para a história de Goiás.
O futuro de
Denise
Euler Belém
— Há possibilidade de Denise Carvalho ser candidata a senadora?
Denise Carvalho, na entrevista ao Jornal Opção, disse que não será mais candidata, mas
eu acredito que ela se referia mais ao seu papel como deputada estadual, em que já deu
tudo de si. Denise Carvalho é uma das personalidades políticas mais admiradas, polêmicas
e enigmáticas da política goiana. É uma mulher que se destacou num Estado fortemente
marcado pelo machismo. Temos que compreendê-la se ela não quer ser mais deputada
estadual, mas por que não candidata a senadora ou mesmo candidata a vice-governadora numa
composição de centro-esquerda, tendo o governador Marconi Perillo na cabeça de chapa?
Essas possibilidades estão abertas.
Euler Belém
— O PSDB, em seu encontro municipal no final de semana, exigiu uma definição do PC do
B em relação ao governo. As pressões contra o PC do B são do governador Marconi
Perillo ou do PSDB de Goiânia?
Em primeiro lugar, é muito estranho um diretório metropolitano tomar uma decisão que
diz respeito ao Estado de Goiás. Não sei como funciona internamente o PSDB, mas me
parece que essa questão deveria ser da alçada do diretório estadual do partido. Mas há
um elemento que precisa ser analisado — a importância crescente da Secretaria de Ciência
e Tecnologia. Antes, essa pasta era o patinho feio da administração. Quando se ia compor
o governo, era a função que sobrava, que ninguém queria. Hoje, é uma secretaria cobiçada,
daí esse tipo de crítica. Mas, fundamentalmente, essa é uma questão que deve ser
tratada pelo governador. E Marconi Perillo tem honrado todos os compromissos assumidos com
o PC do B. Só no processo de privatização da Celg, ele não pôde honrar esses
compromissos. Mesmo assim, teve uma deferência especial com o PC do B e a esquerda. Em
nenhum momento, o governador pressionou a deputada Denise Carvalho ou qualquer outro
membro da bancada de esquerda a votar a favor da privatização. Pelo contrário, mostrou
compreender a posição dos parlamentares. O problema é que o governador Marconi Perillo
se defrontou com uma situação que ele não esperava, em relação à Celg e ao próprio
Estado, e teve de carregar esse peso.
Euler Belém
— Qual o tamanho da participação do PC do B no governo? Ela vai além da Secretaria de
Ciência e Tecnologia?
No primeiro escalão, sou a única pessoa do PC do B. Na Central de Transplantes, na
Secretaria da Saúde, temos Hélio Murari, presidente da Federação Nacional dos Médicos.
E temos Horácio Santos como diretor técnico do Detran. A presença do PC do B é modesta
no governo. Por isso defendo uma frente de centro-esquerda em torno de Marconi, em 2002,
para ampliarmos a nossa presença institucional. Mas essa posição não significa excluir
quem quer que seja da coligação e, sim, agregar a esquerda de maneira mais orgânica.
José Maria e
Silva — É possível aglutinar o PT nessa frente de centro-esquerda?
Acredito que sim. Penso que a esquerda deve fazer uma análise política de Goiás. Não
pode ser dogmática e fazer vinculações mecânicas entre as forças políticas do
Estado, por exemplo: FHC é igual a PSDB, Marconi é filiado ao PSDB, logo PSDB é igual a
Marconi que é igual a FHC. A maioria dos partidos faz esse tipo de análise primária na
sua infância. Hoje, temos que ter maturidade para perceber as diferenças. Quem é que não
vê, por exemplo, a diferença de tratamento que o governador Marconi Perillo dá ao
ensino superior comparado ao tratamento que o governo Fernando Henrique dá ao ensino
superior federal? A Universidade Federal de Goiás só não fechou suas portas em Catalão
e Jataí porque o governo do Estado assumiu a manutenção de seus campi nessas cidades. E
a criação dos cursos noturnos no Câmpus II da UFG contaram com o apoio decisivo do
governador. Foi ele quem iluminou o Câmpus II e suas vias de acesso, para que os cursos
noturnos acontecessem. Estão aí provas concretas da diferença entre Marconi Perillo e
Fernando Henrique.
Euler Belém
— E sua tese de doutorado? Foi abandonada?
Não. Aliás, ela é um dos fatores que jogam por terra a hipótese de uma candidatura
minha. Já cumpri todos os créditos e a redação da tese está adiantada. Tenho até
junho de 2002 para concluí-la. Existe a possibilidade de prorrogação, mas eu gostaria
de fechar esse capítulo da minha historia pessoal para poder vislumbrar outros caminhos.
Euler Belém
— Sua tese de mestrado foi defendida quando? Ela será publicada?
Defendi minha dissertação de mestrado em 1993. Há versões dela, em português e francês,
nas bibliotecas das universidades Federal e Católica. Mas não pretendo publicá-la. Já
não escreveria algumas coisas que escrevi, o que é normal no trabalho científico.
Passei um mês na região onde ocorreu a Guerrilha do Araguaia, entrevistei muitas pessoas
que testemunharam aquele confronto e isso fez com que eu revisse alguns pontos da minha
tese de mestrado.
Euler Belém
— Sua visão da Guerrilha do Araguaia consegue ser crítica, levando em conta sua condição
de membro do PC do B?
Consigo ser crítico, sim, em relação à Guerrilha do Araguaia e a diversos
posicionamentos do meu partido. Agora, quanto à política cotidiana, eu me limito a
discutir internamente os pontos discordantes. Nós lavamos roupa suja em casa. É uma ilusão
achar que os partidos marxistas, comunistas, são absolutamente monolíticos. Temos
debates internos mais acirrados do que o de outras agremiações.
Euler Belém
— Parece que Stalin é um cadáver dentro do guarda-roupa do PC do B: toda vez que se
abre a porta do guarda-roupa, esse cadáver cai...
O PC do B, no seu 8º Congresso, discutiu bastante a questão de Stalin e pontuou diversas
críticas bastante forte à figura de Stalin, reconhecendo, contudo, o seu papel como líder
da União Soviética na luta contra o fascismo que foi fundamental para a derrota da
Alemanha e de seus aliados. Mas foi feita uma crítica a Stalin, sobretudo no que se
refere à falta da liberdade artística e científica e ao abafamento do debate, tanto
dentro do partido quanto na sociedade soviética. A discussão sobre Stalin é muito
carregada de preconceito, porque ela foi moldada no quadro da guerra fria. Naquele
momento, de ambos os lados, capitalista ou comunista, havia o desejo de demonizar o adversário.
Quando foi publicado o Livro Negro do Comunismo, logo saiu o Livro Negro do Capitalismo, o
que mostra esse viés da guerra fria ainda presente. O tempo ainda não permitiu um exame
mais isento do papel de Stalin na Revolução Russa, como hoje já permite do papel de
Robespierre na Revolução Francesa. Stalin cometeu erros, na minha opinião, graves, ao
cercear a liberdade de opinião. Temos o caso do presidente da Academia de Ciências da
União Soviética que, durante muito tempo, perseguiu a ferro e fogo todos os biólogos
adeptos da teoria da genética, alegando que ela era uma teoria absolutamente burguesa, a
favor do capitalismo. Isso resultou na perda de competitividade científica da União Soviética
nessa área, apesar da excelência do país no campo da física, por exemplo.
José Maria e
Silva — O Livro Negro do Comunismo não se limita a acusar Stalin de ditador, o que já
se sabia desde Kruchev. Os autores desse livro sustentam que o totalitarismo e a violência
foram instituídas pelo próprio Lênin, nos primórdios da Revolução Russa.
É preciso situar a origem do Livro Negro do Comunismo. Ele foi idealizado por François
Furet, um anticomunista confesso. Quando foi lançado na França, eu estava lá. Houve um
grande debate sobre ele. Aliás, a repercussão do livro aqui não foi nada perto da
repercussão que teve na França. E os autores desse livro eram pessoas engajadas no
anticomunismo. Eles colocaram alguns intelectuais independentes para dar certa isenção
ao livro, o que não elimina a sua orientação absolutamente anticomunista.
Euler Belém — Mas os dados do Livro Negro do Comunismo são falsos?
Eu não saberia dizer se os dados são falsos. Sei que são permeados pela paixão própria
do período da guerra fria. O que também ocorre com o Livro Negro do Capitalismo. É um
duelo de dois discursos absolutamente antagônicos e polarizadores. Creio que o tempo
permitirá a análise de todas essas questões com um olhar mais isento. Se formos dar crédito
ao que se diz sobre Stalin, vamos ter de acreditar que ele assassinou 100 mil pessoas por
ano, o que me parece uma coisa difícil de empurrar para debaixo do tapete durante tantos
anos.
Euler Belém — Hitler matou 6 milhões de judeus em menos de quatro anos.
Exatamente. E todos sabiam disso. Alguns países ocidentais até fecharam os olhos para o
anti-semitismo de Hitler, mas não tiveram como esconder os 6 milhões de cadáveres. Todo
processo revolucionário é violento, é um processo excepcional na história. E ao se
fazer o balanço deles, tanto de um lado quanto de outros, é difícil a isenção. Do
mesmo jeito que se pode contestar, no Livro Negro do Capitalismo, as vítimas da Revolução
Industrial como sendo vítimas do capitalismo, também no Livro Negro do Comunismo se pode
questionar as vítimas da Revolução Russa como mortes do comunismo. Nenhuma das duas
publicações teve isenção histórica suficiente para que possamos fazer uma análise
sobre o assunto.
José Maria e Silva — O senhor disse que, na França, o debate sobre o Livro Negro do
Comunismo foi extremamente acirrado e que, no Brasil, praticamente não houve repercussão
alguma. Isso não é uma prova de que, no Brasil, grande parte do aparelho ideológico do
Estado está nas mãos da esquerda?
Não acredito. Ocorre que, quando o livro chegou a ser publicado aqui, já existia
resposta para ele. Centenas de artigos tinham sido publicados nos jornais, num debate
historiográfico de certa forma mundial, e era natural que ele já não tivesse o impacto
que teve na França, inicialmente. Essa questão da quantidade de mortos, por exemplo,
varia muito e não dá para saber se os dados que ele apresenta como mortos do comunismo são
verdadeiros.
José Maria e Silva — Tenho observado que os livros didáticos de história do ensino
fundamental e médio tendem a ser extremamente críticos em relação ao capitalismo e
condescendentes com o comunismo. Muitos livros recomendados pelo próprio MEC parecem ter
sido escritos dentro do PC do B ou do PT.
Quando uma pessoa vai escrever a história muito recente, facilmente se deixa seduzir
pelas paixões instantâneas e conjunturais, dai o grande questionamento metodológico da
história, se a história pode ser escrita no calor dos fatos. Para muitos, estaria aí a
fronteira entre o jornalismo e a história. O jornalismo poderia ser feito no momento dos
fatos, mas a história exigiria distanciamento. Esse é um problema que eu pude
experimentar na minha pesquisa. Tive de fazer um esforço muito grande para quebrar idéias
que pareciam consolidadas, cristalizadas. Há paixões antagônicas envolvidas na
Guerrilha do Araguaia e, mesmo hoje, é difícil escrever sobre ela sem cair no panfleto.
Creio que muito do que hoje se chama de história poderia ser classificado como panfleto.
Mas eu não chegaria ao ponto de dizer que os aparelhos ideológicos de Estado sejam
majoritariamente dominados pela esquerda. Dizer, por exemplo, que as universidades são
antros de esquerdismo é um exagero. Convivo com os universitários, com os pesquisadores,
e sei que isso não é verdade, principalmente entre professores e alunos, onde há um
grande número de eleitores de Fernando Henrique.
Euler Belém — As universidades não estão transformando Fernando Henrique Cardoso
num monstro, uma espécie de Stalin da direita?
A maioria condena Fernando Henrique Cardoso, mas isso se deve ao tratamento que o governo
federal tem dado às universidades, não a uma posição ideológica. Eu, particularmente,
não fiz nenhum discurso violento contra Fernando Henrique Cardoso. Apenas critico o
tratamento que o governo federal tem dado às universidades federais. O ministro Paulo
Renato tem dado um tratamento de choque nas universidades federais. Até reconheço que
esse tratamento de choque obrigou as universidades a reagir e se fortalecer, mas continuo
achando que a reação do governo federal em relação às universidades federais foi e é
negativa.
José Maria e Silva — O livro Pensamento Pedagógico Brasileiro, de Moacyr Gadotti,
discípulo de Paulo Freire e uma das maiores estrelas da pedagogia brasileira, omite o
nome de um dos maiores educadores brasileiros, o escolanovista Lourenço Filho, enquanto
cita Lênin seis vezes, o mesmo número de vezes que cita Piaget. E, mais grave, situa Mao
Tsé-Tung ao lado de Sócrates, como um dos grandes educadores da história. Não é grave
que um livro adotado nas escolas de formação de professores tenha esse tipo de visão?
Moacyr Gadotti é, sem dúvida, um dos grandes pensadores brasileiros da educação e tem
uma vasta obra, que não conheço toda, e tem dado uma grande contribuição à educação
brasileira. Confesso que não li esse livro, mas se esses dados se confirmam e Lênin é
colocado ao lado de Piaget, assim como Mao Tsé-Tung aparece ao lado de Sócrates, sem dúvida,
me parece um absurdo, uma coisa indevida, talvez seja um exagero. Moacyr Gadotti pode ter
sido infeliz nesse livro e vai ter que se explicar. Não li o livro e não quero julgá-lo,
mas, trabalhando sobre essa questão que foi suscitada, reconheço que situar Mao Tsé-Tung
ao lado de Sócrates é de uma impropriedade absoluta.
Euler Belém — O PC do B deixou de se considerar um partido marxista-leninista?
Não. O Partido Comunista do Brasil ainda se considera — inclusive nos seus estatutos
— como partido marxista-leninista.
Euler Belém — Lênin tem a estatura de Marx?
Não se trata de uma comparação entre um e outro, mas apenas de reconhecer que Lênin
foi o líder que transformou o marxismo de concepção teórica em aplicação prática.
Ele foi o primeiro grande líder revolucionário, considerado pelos marxistas, que aplicou
criativamente o marxismo, desenvolvendo as condições concretas de implantação do
socialismo num país como a Rússia, na época do imperialismo.
Euler Belém — O que vocês fizeram com os livros de Enver Hodja, o ex-líder da Albânia,
país comunista que já foi considerado modelo para o PC do B?
Eu tenho muitos livros de Enver Hodja, mas conheço muita gente pelo Brasil que chegou até
mesmo a colocar o nome dele em filho. Houve um amadurecimento por parte do PC do B, a
partir da crítica e da desvinculação de modelos externos, seja ele o paradigma chinês,
o albanês, o cubano ou o romeno. O que queremos, hoje, é a construção de uma
alternativa socialista para o Brasil.
Euler Belém — A luta armada ainda faz parte do ideário do partido?
Não há nenhuma defesa da luta armada, como também não há uma demonização dela. Na
verdade, as formas de luta vão desde um abaixo-assinado até a luta armada.
José Maria e Silva — Por que, em sua avaliação, Iris Rezende, em declaração
publicada pelo jornal O Popular, centrou suas críticas mais contundentes exatamente na
UEG?
Porque o absoluto sucesso da UEG incomoda. Aliás, o conhecimento incomoda muito Iris
Rezende e o PMDB. Eles praticamente nunca fizeram nada por ele. A UEG tem problemas, é
complexa, mas não se pode negar que é uma obra fundamental para Goiás, um anseio da
comunidade universitária que Marconi Perillo ousou pôr em prática. Mas não poderíamos
esperar que um homem como Iris Rezende compreendesse o que é uma universidade como a UEG
e soubesse diferenciá-la de uma faculdade isolada. Seria o mesmo que esperar que Iris
soubesse dizer, por alto, o que foi o Bug do milênio, que tanto preocupou o mundo na
virada de 1999 para 2000. Aliás, o próprio Iris usou uma imagem muito adequada ao
explicar porque pretende se candidatar à reeleição. Ele disse que político é como
bicicleta, se parar cai. Só essa imagem mostra que ele parou no tempo. Hoje, vivemos a
era da informática, da eletrônica, que mede a velocidade em nanosegundos, enquanto Iris
fala em bicicleta. É um anacronismo fora do comum. O próprio universo vocabular do
senador é sintoma do seu atraso político. Iris teve um papel importante na história de
Goiás, não vou ser injusto de negar isso, mas precisa descobrir que o mundo mudou. Sua
derrota em 98 é a melhor prova disso. Muito mais do que mudanças na esfera política,
ela significou uma mudança de geração, que merece até um estudo sociológico mais
profundo. O Estado de Goiás agrário e conservador, que forjou políticos como Iris
Rezende, já não existe mais, a não ser em alguns bolsões de conservadorismo. Goiás já
ingressou na era tecnológica, trabalha com tecnologia de ponta, como no caso dos
medicamentos genéricos. E sua política também se renovou como nunca. Todos os programas
avançados que a esquerda iniciou em outros Estados e municípios, quando teve a
oportunidade de governar, estão sendo implantados aqui. Receberemos uma comitiva do
governo do Rio que virá conhecer o Programa Bolsa Universitária. E no Rio Grande do Sul,
a Universidade Estadual de Goiás se tornou motivo de debate. Uma comitiva do governo gaúcho
virá a Goiás conhecer a UEG. Creio que se o PMDB continuar criticando áreas
reconhecidamente meritórias do governo, vai acabar sofrendo uma derrota fragorosa já no
primeiro turno.
Euler Belém — Maguito Vilela é uma face mais moderna de Iris Rezende?
Só se modernidade for sinônimo de letargia. Mesmo quando comparado com Iris Rezende,
Maguito Vilela ainda consegue ser a encarnação do atraso. Reconheço que Iris pelo menos
teve um papel importante no passado, durante o período da redemocratização do país. E
Maguito, que papel teve? Passou quase quatro anos no governo e até hoje ninguém
conseguiu descobrir uma terceira obra sua — foi só cesta básica e ginásio de
esportes. Mesmo assim, cesta básica com feijão carunchado e ginásio de esportes com
dinheiro de Cachoeira Dourada. Maguito dissipou o dinheiro de Cachoeira Dourada em
centenas de obras inúteis, que ficaram inacabadas, mesmo assim não sobrou um centavo.
Pelo contrário, só dívidas. Uma delas foi com os pesquisadores do Estado, para quem
Maguito prometeu 1 milhão de reais, provenientes do dinheiro da venda da usina. Os
pesquisadores acreditaram, apresentaram seus projetos, mas o dinheiro nunca saiu. O
governador Marconi Perillo, com todas as dificuldades que teve de enfrentar, foi quem
pagou essa conta.
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